“Na Bahia, quem não é primo é vizinho! Quem não é nem primo, nem vizinho, é compadre! Quem não é primo, nem vizinho, nem compadre, é conhecido! Quem não é primo, vizinho, compadre, nem conhecido, é ‘de casa’, ou é da família, ou é da região, ou é o mesmo que irmão”. E assim, o arquiteto e professor de história, Francisco Senna, animou e descontraiu a todos que assistiram à palestra sobre ‘Baianidade’, que ocorreu na manhã desta sexta-feira (01.07), às 10h, na sala de treinamento da Escola de Contas José Borba Pedreira Lapa (ECPL).
O evento integra o ciclo de palestras do Programa “Novos Saberes”, organizado pela ECPL, que tem o objetivo de abordar temáticas diversas que possam agregar conhecimentos para os servidores do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE/BA). Em sua narrativa, o professor e arquiteto Francisco Senna percorreu os episódios revelados pela historiografia oficial, respondendo a pergunta: Quem nós somos a partir do que fomos? Com propriedade, ele associa nossa baianidade as nossas raízes, miscigenação e alianças. Para ele, ‘Baianidade’ é uma expressão que traduz em identidade cultural e tem a ver, essencialmente, com comportamento.
“É o jeito de ser do baiano que se constituiu a partir de suas raízes históricas, desde a fundação da cidade de Salvador. A Bahia é uma nação, mas não como um conceito geográfico, e sim como conceito de identidade cultural. Você estabelece uma noção na medida do encontro dos iguais, dos semelhantes. E essa construção de nação é muito distinta. Através da miscigenação, dos costumes que foram trazidos, do sincretismo que aconteceu aqui na Bahia”, afirmou o palestrante.
Na oportunidade, o conselheiro-presidente do TCE/BA, Inaldo da Paixão Santos Araújo, presenteou o professor com o Livro de Ouro, lançado nas comemorações dos 100 anos da Corte de Contas, intitulado “Uma breve história do controle – na visão de um Tribunal centenário” e com a revista em quadrinhos “Você no Controle”, além de uma estatueta de Ruy Barbosa, considerado o patrono dos Tribunais de Contas no Brasil.
Para o diretor da ECPL, Luciano Chaves de Farias, o tema foi escolhido pelo fato de abordar conteúdos culturais e também pela aproximação de uma data marcante para Bahia, que é o 2 de Julho (data que se comemora a independência da Bahia).“Nada melhor do que falar sobre a história da Bahia, sobre ‘baianidade’, nas vésperas de um feriado tão importante para nossa história.”
Em sua explanação, Francisco Senna revelou que o Brasil nunca teve unidade política ao longo da sua história e que as regiões pouco se comunicavam. “Dessas 15 capitanias, o donatário Francisco Pereira Coutinho, que aqui chegou em 1536, só sobreviveu 10 anos. Antes dos portugueses colonizarem o país, a pirataria francesa tomou conta do nosso litoral, explorando o pau-brasil. A primeira extração foi feita pelos corsários franceses, da região da Bretanha”, esclareceu.
Senna disse ainda que, em 1509, o Brasil era um grande entreposto de comércio e que a Baía de Todos-os-Santos se torna obrigatoriamente um ponto de parada das naus portuguesas na Rota do Atlântico Sul para reabastecimento das caravelas, provimento de víveres, de água, e reparo das embarcações. Enfim, estrategicamente, o país era importante como ponto de apoio na Rota do Oriente. E evocou uma frase de Cid Teixeira para traduzir esse momento: O primeiro projeto de Parceria Público-Privada foi realizado por Dom Joao III com os capitães das capitanias.
De acordo com o palestrante, a cidade nasceu com funções de sede de governo, vocação comercial, centro portuário, fortaleza, religiosidade e encontro de povos. “Isso faz com que Salvador se torne uma cidade receptiva a produtos, mercadorias, influências e etnias do mundo inteiro. A tal ponto que até hoje é corriqueiro a gente nomear os produtos de acordo com os continentes de origem. Da terra, da Costa, da Índia e do Reino”, explicou.
O estudioso concluiu afirmando que vivemos até hoje numa sociedade patriarcal. “A família do colonizador vivia intramuros. A família não saia de casa. O português não andava na rua. Num relato do fotógrafo Pierre Verger, ele afirma que levou anos para descobrir que tinha branco na cidade. O viajante que chegasse no porto e andasse pelas ruas não via um branco sequer. E isso continua impregnado até hoje. E é tão forte que o nosso povo negro, acostumado à rua, não gosta de lugar fechado. Abra um negócio, bote mesas dentro e fora da calcada, e observe. Fora está lotado, dentro está vazio. E quem está dentro é branco”.
FRASES QUE EXPRESSAM NOSSA BAIANIDADE
- Conte comigo!
- Deixe que eu dou um jeito.
- Não se avexe, não.
- Pra que tanta pressa?
- O mundo não vai acabar.
- Hoje eu não estou pra prosa.
- Deixa que eu tomo conta
- Agora não, mais tarde.
- Hoje o mar não está pra peixe.
- Deixa disso!
- Tá combinado, viu?
- Diga aí, meu jovem!